Gli sembro piu dolce anche la morte
“Você sente as coisas, você vê coisas”, o véio disse um dia. Eu nunca tinha acreditado, até hoje.
“…até o último fio de cabelo. Você está em paz.” Foi a última coisa que ouvi. Eu não estava mais lá e não saberia dizer ao certo se o porto seguro que eu deveria imaginar era a ampla varanda de azulejos vermelho queimado da fazenda do meu avô, ou se seria a pequena sacada de concreto do apartamento em Ubatuba. Não sei onde estava, mas sei com quem eu estava.
Meu nariz ardeu, segurando a vontade de chorar.
Os finos cabelos ondulados, meio arrumados, meio com frizz. Curtos e com um tom leve de grisalho. O nariz arredondado, batatudo, sobre os lábios bem desenhados por um lápis de boca da cor do batom claro. Eu podia enxergar os dentes perfeitos da dentadura que ela deixava repousar em um copo na cozinha durante a noite mesmo se ela não sorrisse. Estavam tão claros na minha lembrança. Meu nariz continuava ardendo, implorando que eu chorasse.
Ficou sentada ao meu lado sem dizer nada, mas trouxe paz. E por sabe lá quanto tempo eu senti como se fosse a pessoa mais importante do universo só por ela ter escolhido estar ali ao meu lado depois de tanto tempo. Era tão importante pra mim.
Eu podia sentir o cheiro dela. Cheirava a pele velha com o cítrico suor que ela costumava deixar na cozinha quando cozinhava. Pode parecer ruim, mas era o melhor cheiro do mundo, o da pele dela. Ela sorriu, eu sorri, respirei fundo e ficamos quietas uma ao lado da outra. Nada precisava ser dito.
Voltei a me sentir no colchonete da sala. Uma voz chamava. Soltei todo o ar como se expulsasse a lembrança.
Ainda não sei explicar como ela veio a mim, mas o nariz continuou ardendo uma despedida sem adeus.
“Você vê coisas”, disse o véio certa vez. Graças a Deus eu vejo.
Senti il dolore nella musica, e si alzo dal pianoforte
Ma quando vide la luna uscire da una nuvola,
Gli sembro piu dolce anche la morte. ♪
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