quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Descompasso

Aquele dia ela bateu na porta dele com cara de bom dia e sentou na cama com um sorriso de algo mais, sorriso de melhor amigo, de melhor amor. Ele auscultou seu coração e -não, você não leu errado, auscultou, com estetoscópio e tudo- sorriu um sorriso de tesouro raro e disse:
-o seu problema é lindo.
Ela bem tinha um problema, com nome médico e tudo, diziam hereditário, daqueles que faz a batida do coração soar diferente. E quando ele chamou aquilo de lindo ela desatou a rir, porque um descompasso no coração pode ser tudo, menos lindo.
Ela brincou:
-Se ficar comigo vai virar médico particular.
Ele não titubeou:
-Eu vou adorar cuidar de você.
--
Hoje ela nao bate mais na porta dele com cara de bom dia e quando o encontra não sabe se chora, se olha no olho, se olha pras mãos. E, estranhamente, depois dele o descompasso no coração nunca mais voltou. E ele nem sabe.