Helena era uma garota de passos leves, cabelos curtos e franja caindo nos olhos. Andava pela rua como se não pudesse ser vista, pelos cantos, com o rosto enfiado em páginas de livros mofados. Volta e meia soprava de volta o cabelo que atrapalhava a visão, volta e meia girava o olhar em torno para não tropeçar e cair. Escondido no livro havia o sorriso de Helena, convencido de que conseguiu um novo item para sua preciosa coleção de vidas. Entrou em casa fechando as páginas, deixando o pó subir. Correu em direção ao seu cômodo favorito, trancado a sete chaves com todas as histórias que ela pudesse reunir. Lá dentro um mundo só seu, onde pais desejavam feliz aniversário a seus filhos, amantes se declaravam, desconhecidos proclamavam o futuro e amigos abraçavam em tons vogais. Helena sabia que em cada livro de sua coleção havia uma história escondida, de vidas que por alguma coincidência se cruzaram e foram parar em suas mãos. Olhou em volta, decidindo onde sua nova aquisição seria guardada. Abriu novamente as primeiras páginas de Chega de Saudade, de Ruy Castro, onde leu em pequenas letras esticadas para a direita: “João Gilberto, certa vez, disse a alguém: ‘o vento está descabelando as árvores’. Como resposta ouviu que ventos não tinham cabelos e cortou, de forma fulminante, devolvendo: ‘E há pessoas que não têm poesia’. Você é uma pessoa feita de versos. Obrigado por me deixar ler. Te amo.” Helena abraçou o livro, suspirando, fechou os olhos e imaginou um casal de ‘final feliz’. Para ela livro sem dedicatória não era um presente, era um ‘passar adiante’. Não importava a Helena o que aconteceu a eles depois, desde que aquele momento eternizado nas páginas amareladas durasse para sempre. E, dia após dia, ela voltava aos sebos da Praça da Sé em busca de outros finais felizes. As prateleiras de Helena estavam abarrotadas de vidas em livros que ela nunca lia - só lhe interessava a dedicatória. Sentava em sua poltrona e folheava os dias das pessoas, sonhando com os lugares em que as histórias foram escritas, no momento sempre passageiro em que o sentimento se transportou para aquelas páginas. Era feliz vivendo a vida dos outros. Na manhã seguinte voltou ao seu passatempo favorito. Entrou na loja sentindo o nariz coçar com a poeira –adorava a sensação –e se embrenhou nos corredores atrás de uma nova vida colecionável. Abriu Maquiavel, Saramago, Carlos Drummond, Agatha Christie, Tolstoi, Poe, Gabriel Garcia-Márquez e Lispector. Nada. Respirou fundo, esperançosa, e mudou de prateleira procurando outros romancistas, já que “o amor sempre dá boas dedicatórias”. Cervantes, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Jane Austen: Nada. As vidas haviam sumido junto com as pessoas que se desfizeram dos livros. Mas Helena tinha uma última carta na manga: Shakespeare, o melhor romancista da história. “De Shakespeare nem as vidas podem fugir”, pensou, lembrando que nunca havia lido nada do autor. Correu ao fundo da loja e procurou, procurou, folheou. Nada. Sentiu-se vazia, como se a própria vida tivesse desistido dela. “Como poderia não haver nenhuma? Como as pessoas podiam não dedicar um livro?” Baixou os ombros desanimada e caminhou para a saída sem saber o que seria do seu dia sem uma história para guardar. A poucos metros da saída um livro de capa de couro vermelha chamou sua atenção, havia um papel colado nele com uma flecha rabiscada apontando o título “Helena” de Machado de Assis. O coração da jovem acelerou, curioso. Helena apoiou o livro entre os dedos finos, prendeu a respiração e abriu a capa. Palavras em tinteiro preta foram rabiscadas há pouco ali, a tinta ainda brilhava e borrava as costas da página inicial. “A Helena de Machado de Assis jamais viveu o amor que sentia, a vida que era dela e o tempo que lhe foi dado. Não faça o mesmo. Com amor, G.” Silêncio. Não havia nome, não havia data, mas Helena enfiou o rosto entre as páginas e sorriu, corando, sentindo um nó se formar na garganta, as pálpebras úmidas. Abriu o livro em uma página qualquer e, como nunca havia feito, leu. “...Uma lágrima brotou-lhe dos olhos, quente de todo o calor de uma alma apaixonada e sensível; brotou, desligou-se e foi cair no papel.”. A palavra ‘papel’ borrou. Helena agarrou o livro nos braços como se a sobrevivência dependesse disso, a cabeça borbulhando em pensamentos, o estômago remexendo sem ser fome. Saiu do sebo radiante como o sol que retocava as cores da rua. Nunca na vida havia recebido uma dedicatória. Pela primeira vez em anos colecionando mensagens sentiu verdadeiramente o efeito delas. Entre versos e sonhos de finais felizes Helena despertou-se para uma nova coleção. Quem era G? "Com amor?" Como encontra-lo? Perguntou-se. E a garota dos livros se encheu de planos e começou a colecionar lembranças.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
A menina que colecionava vidas
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